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PERDÃO
Posted by mundo100xd
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15:31
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sentimentos
Tampouco entraremos em considerações teológicas sobre o perdão como um ato de “descriação”, ou seja, como um ato humano que realmente apaga aquilo que perdoa. Limitar-nos-emos à experiência do encontro com Deus no ato de perdoar. Entendemos por perdão algo mais que o ato de cancelar uma dívida, de não exigir o cumprimento de uma justiça distributiva ou o fato de se estabelecer uma reconciliação jurídica. A reconciliação costuma ser mútua, embora existam muitos níveis nela. O perdão é algo mais. É uma ação ativa que não necessita reciprocidade — embora a possa provocar com a iniciativa unilateral.
Uma passagem de são João (20,22-23) relaciona a recepção do Espírito Santo com a capacidade de perdoar. E com efeito, quem é capaz de perdoar experimenta que não o faz em virtude de um silogismo ou pelo arrazoado comum segundo o qual sem perdão nos fazemos mal a nós mesmos e também ao outro. O ato do perdão escapa ao império da vontade. Eu poderei não exigir satisfação, renunciar a castigar, não querer mal a quem me ofendeu e até tentar esquecê-lo. Porém, não posso perdoar em virtude de um ato de vontade. Esta não me obedece. É preciso algo mais: o Espírito Santo, uma força que me é dada, algo que não provém de meu ego e que me liberta tanto quanto liberta o “pecador”. Só Deus pode perdoar, já reconheciam os judeus.
Repetimos que o perdão não é a reconciliação mútua, não é um pacto de não-agressão ou de renúncia à vingança (ou satisfação). A experiência do perdão pertence a outro gênero. Em primeiro lugar, sentimos nossa impotência. Quiséramos, às vezes, perdoar, mas não podemos. Não devolveremos o mal por mal, nem nos vingaremos, porém perdoar pertence a um nível ontológico diferente. Ele é experimentado como uma graça, como algo que não podíamos e um belo dia se nos torna possível.
A falta de perdão é o que vai acumulando o karma negativo na história da humanidade, que, sonhando com a vitória do bem sobre o mal, vai de vingança em vingança, de reparações em contra-reparações e de guerra em guerra. Se não perdoarmos Hitler, cito por acaso, sua maldade reaparecerá nos ditadores e monstros que têm conseguido subir até os cumes do poder político (militar, econômico ou religioso). O ser humano é co-autor da história.
Quem foi capaz de perdoar, certamente encontrou a Deus.
A experiência do perdão rompe todos os nossos esquemas, tanto da inteligência como da vontade. A inteligência não pode desconhecer que me fizeram um mal irreparável (torturaram minha filha até a morte, por exemplo). A vontade não pode não-querer que se haja “justiça” e se pague a dívida. E se perdôo não é porque creio em sua conveniência (quem sabe se o castigo não é saudável?) ou porque quero perdoar (para ser bom ou ter méritos), mas o faço espontânea e livremente (quando verdadeiramente perdôo).
Algo ou alguém desde o mais profundo de mim mesmo me deu a força (inspirou) para perdoar. O Espírito (divino) atuou em mim e por mim.
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